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RICARDO NASH E O CÓSMICO NA OBRA DE SARA NACHO ARTESÃO CÓSMICO
Ricardo Nash
Para os filósofos Gilles Deleuze (1925-1995) e Félix Guattari (1930-1992) a arte não espera o homem para começar. Para eles, a idéia de arte está diretamente atrelada ao ritmo. Ao ritmo das coisas. E tudo tem ritmo. Até o que consideramos como não-vivo. Assim, todo e qualquer corpo realiza troca com o seu meio. Ao seu ritmo, mas dentro do ritmo do cosmo. Como um corpo só. Uno. O que os pensadores nos apresentam é a possibilidade de perceber que nas relações, sejam elas moleculares, atômicas, humanas (sociais, políticas, etc.), cósmicas, tudo é gerado por algum tipo de troca. Essa troca produz vibração, produz energia. Produz ritmo. A vibração do corpo humano ocasionada pela troca de oxigênio produz calor. Calor que nos mantém vivos, no pulsar do coração, no pulsar da vida. Toda a natureza está repleta de ritmo. É o ritmo que cria os desenhos e as cores do universo; as oscilações das marés e dos ventos; dos sóis e das luas. É o ritmo que cria os temperamentos; as tormentas e as colheitas. Ritmo é inspiração e expiração do cosmo; do contínuo tempo-espaço em que atuamos com nossas ações. Quando se está em sintonia com a vibração do universo tudo acontece. A seu ritmo. A seu tempo. E somos um, no ritmo do ventre do universo, que pulsa, que dança. E dançamos a coreografia do Universo. Ora intempestiva, ora moderada. Às vezes simples, às vezes complicada. Mas, sempre dinâmica. A obra de Sara Nach é assim: cheia de movimento, profunda e comovente. Por vezes simples. Em outras, suntuosas. Outras tantas, simplesmente linhas. Traçadas por linhas que se fazem contínuas no espaço e que encantam. Um olhar atento às suas esculturas nos evocam lembranças, histórias, sentimentos, emoções. E pedem atenção: o olhar e a escuta. Que seja um exercício de contemplação. Escutar e contemplar o ritmo do cosmo para ver com outros olhos. Ver e sentir o pulsar do universo, e assim, exercitar o estado natural de ser, em eterno movimento. Suas esculturas nos remetem ao pensamento de Deleuze e de Guattari quando estes atrelam a arte ao ritmo do universo, transformando o artista em um artesão que, com sua técnica, seu olhar, seus sentidos, se conecta ao universo e que, com sua obra, nos conecta, conecta seu público, ao movimento cósmico. Ser uno com o cosmo é ser um artesão cósmico. E Sara Nach é uma artesã cósmica. Cabe a nós, como faz a artista, ampliar o nosso olhar, ampliar a nossa escuta; transmutar nossos sentidos e recriar nossa conexão com o infinito; às micro-percepções do ar, do mar, da luz, da terra, do fogo para fundir a percepção com o imperceptível. Sejamos artesãos cósmicos e fundemos...fundemos...fundemos. Consulta bibliográfica:
Ricardo Nash é ator, músico, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, bacharel em Comunicação das Artes do Corpo, na área de teatro pela PUC/SP e filho da escultora. Para conhecer seu trabalho, visite: www.ricnash.multiply.com A.Evremidis escreve sobre as esculturas de Sara NachA BELEZA SUPERLATIVA ALEXANDROS P. EVREMIDIS Empatia, simpatia, emoção, paixão? São palavras que com facilidade nascem na mente de quem observa as esculturas de Sara Nach. Comigo foi um pouco além, e a tal ponto que, encantado, subitamente exclamei: Que beleza, que dinâmica, que movimento! E que volume, que plástica, que sensualidade, que expressão! E essas sedutoras saliências e essas acolhedoras reentrâncias, as dramáticas torções! Dadas as coordenadas e localizado o epicentro, podemos rodear as obras, rodopiar, dançar, apalpar, acariciar e no instante oportuno penetrar seu íntimo e proceder à impossível, por pertencer aos domínios do mistério, devassa da criação, que é o que Sara Nach narra. Mas antes: onde se originava aquela força motriz que conferia tamanha dinâmica e ondulante movimento no espaço? Não hesitei em responder que era extensão de um movimento interior que nascia nas entranhas de Sara, crescia se avolumava e por fim assim se expressava. Quem vive a arte em tempo integral, e mesmo quem não, sabe que obras há que nos fazem franzir o cenho e apertar a vista para apreender o não patente; outras nos levam à reflexão, à meditação, à mais pura contemplação; outras ainda, fantasmagóricas, nos arregalam os olhos; as que atraem e repelem; fazem nossos olhos marearem e, por que não admitir, desandar em lágrimas; e, claro, as que nos subjugam e obrigam a esboçar um sorriso que, sob a contração das inflamadas maçãs, logo se transformam em sol ridente. Sara Nach, que carrega um generoso quantum disso tudo, parece ter se tornado instrumento das poderosas forças primordiais, Chaos e Eros, Beleza e Emoção. A beleza, delicada e etérea, nos envolve e mantém suspensos no espaço. A emoção vem como uma enxurrada e nos arrasta, se supera e causa (causou!) comoção geral! Visualizo Sara subtraindo ao informe deus porções de matéria, acariciando, configurando com atributos mínimos e animando-as, transfigurando-as em arquétipos, avatares de tudo que depois viria. É esse rito que agora nos contagia orficamente e faz seguir as pegadas da artista, antes mesmo de ela começar a andar. É irrefreável o compulsivo impulso que sentimos diante das suas belas criações: pegá-las e com respiração sincopada percorrer-lhes os aparentes e os recônditos contornos, acompanhar-lhes os sugestivos gestos no espaço, apertá-las ao peito e aninhá-las no colo, sobre elas nos fechar. Tudo para nos tornarmos cúmplices do sublime. Domando e mantendo nos limites do necessário a rigidez (para uns, aridez) geométrica da masculina linha reta, Sara fundamentou o léxico formal das obras na estética da curvatura (não se curva o universo sobre si?) cálida e úmida dos arcos, das parábolas, das hipérboles. Observando-lhes as sinuosas e exultantes posturas, sente-se logo por que transcendem o real e se inscrevem no Cosmo como entidades em fluxo e há um tempo em suspensão. São partículas e também são ondas. Deixemos Sara no espaço onde construiu sua morada, privilegiado posto avançado de observação das humanas destinações, e falemos do táctil. Suas esculturas em bronze, com estratégicas patinações aqui e ali dialogando com os eventos pictóricos, são de pequenos e médios formatos que se agigantam ao toque do olhar. Dotadas de brilho, reluzem como se de ouro. Patinadas, remetem à afetiva arqueologia da fértil fecundidade. Salta aos olhos que a população é preferencialmente do universo feminino. Pertence a ela, mas também a todos nós. São mães, irmãs, amigas, personagens míticas. São reais e são protéicos protótipos. São bailarinas que exploram as coordenadas do plano. São grávidas (continentes) opulentas, com a personalizada cornucópia recheada do bem supremo, que se ostentam, se espalham, geram espaços e dão seqüência ao elo. São mediadoras da criação primeira e da artística. A mãe é fera que demarca o território da defesa, guardiã que é da vida. Há prosopopéias de emoções e sentimentos cotidianamente humanos - culminante é a comovente mulher atirada "A teus pés". Os fenômenos naturais também são candidamente representados. Os homens, embora não centrais, já que a dorsal de Sara é a matriz da Gênese, não estão ausentes e dançam com seus opostos complementares o pas-de-deux: enlaçados, entrelaçados, enamorados ou pairando sobre o grupo família dizem do que nos une - o encontro. O pai, capítulo a parte, está parafraseado no suspiro "Oi Guevalt", algo como "Ai que violência, que sofrimento!". Uma figura ajoelhada, peito aberto às investidas, braços e olhar para os céus. Não há cenografia nisso, nem excesso de poesia. Se sofrer é melhor que o nada, compaixão é sofrer junto. Proceda-se a uma dramática redução escalar das obras de Sara Nach e alguns felizes terão jóias perenes com que ornamentarem as perecíveis carnes. Ampliando-as em dimensões heróicas e incrustando-as no firmamento seremos todos democraticamente contemplados pela Beleza - ela piscando de lá e nós co-respondendo de cá. Depois perguntam: Para que serve a arte? Sei eu lá! Vai ver que é para ser servida - no café, no almoço, no jantar, nas 24 frações de vida que, de cada vez, nos é concedida. Alexandros Papadopoulos Evremidis- Crítico de arte independente. Diretor-editor do Jornal virtual RioArteCultura.com
Texto de Oscar D'Ambrosio para obra de Sara Nach
NO UMBRAL DO PORTAL
Oscar D'Ambrosio
“Para mim não há passado ou futuro na arte. Se uma obra não pode viver sempre no presente, ela não pode ser absolutamente considerada”. As palavras de Pablo Picasso fornecem uma pista para penetrar no mundo escultórico de Sara Nach, movido pelo impulso de criar.
Suas imagens, seja de mulheres grávidas, da mítica Perséfone, de cavalos ou de guardiões e anjos, mantêm em comum um mesmo traço: a permanência nelas de um gesto visceral, ainda mais reforçado quando se observa o brusco corte em planos que oferece uma ruptura naquilo que se espera na composição das linhas.
A inquietação contemporânea da obra de Sara se cristaliza na maneira como as pernas da escultura apontam para o alto. Há um desejo sempre presente de elevação e de renovação constante. A melhor escultura será eternamente a próxima e a obra merecedora dos maiores elogios estará certamente no umbral do portal da própria consciência, pronta a ser retirada da argila, fundida em bronze e patinada. Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil). abril de 2008 7:29 | Adicionar scrap |
SÔNIA HIRSCH ESCREVE SOBRE A INTENÇÃO NAS ESCULTURAS DE SARA NACH
A INTENÇÃO REVELADA
Sônia Hirsch
Um objeto atrai a atenção.O olhar desliza pela limpeza da forma, sente a textura,percebe o brilho, pousa no detalhe.Subitamente a intenção se revela.A emoção dá vida ao bronze,e é possível apalpar o movimento e a pulsaçãoque ele ao mesmo tempo encerra e irradia.Forma, conceito, conteúdo, sentido, ritmo – e o prazer decriar contagiando o prazer de olhar.A escultura de Sara Nach amadureceu ao longo dos anosnum percurso interior, isolado,somando conhecimentos de áreas profissionais tãodiversasquanto texto, artes gráficas, editoração,arte-educação, teatro, cerâmica,e hoje se multiplica em objetos como a música emsinfonias.Seu universo é feminino e sua sinfonia também.Às vezes allegro, às vezes lento,cada movimento é pleno de força e estilo.Sara Nach nos presenteia com esculturas que ficamcomo palavras sólidas,pulsantes, eternas.Sonia Hirsch é escritora e pesquisadora.Autora de "Manual do Herói", "Só para Mulheres","Os Gatos", entre tantos outros.EMANUEL MASSARANI ANALISA OBRA DE SARA NACH
FIGURAS E ANIMAISQUE NASCEM DEUM MAGMA PRIMORDIAL
As esculturas de Sara Nach revelam uma aguda tensão imaginativa que estabelece o seu equilíbrio na relação entre superfícies patinadas refinadamente e outras brilhantes e douradas, entre planos que deslizam, sob a reverberação da luz e outras que se crispam. As formas de suas obras são repletas de um dinamismo cuidadosamente controlado e parecem equilibrar-se numa delicada posição entre moto e imobilismo. A vitalidade que essa relação cria consiste, em modo paradoxal, no sentido de paz que elas transmitem. São, portanto, coerentes com a visão que seu criador tem da experiência de vida e esse é um ponto que vai, em certo modo, além da constatação do talento. Alcançar o essencial do caráter para suas figuras não constitue um problema para Sara Nach: manchas, linhas e massas se assimilam num jogo de compensações plásticas para criar documentos onde a continuidade do espírito dramático vem envolvida num conjunto de princípios expressionísticos e simbolistas. Trata-se de uma criatividade altamente válida e pessoal, na maioria das vezes impressionante pela sua força expressiva e pelo valor dos efeitos técnicos obtidos. Nas suas esculturas a dinâmica volumétrica orquestra plenos e vazios em sucessões quase seqüenciais e unem o pensamento com a composição, materializando fantasia e humores, num discurso que engloba figuras e animais que nascem de um magma primordial.
Emanuel von Lauenstein Massarani: crítico de arte e superintendente do Patrimônio Cultural da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo - SP Brasil ANTÔNIO LUIZ DE CASTILHO ANALISA UMA OBRA DE SARA NACHRUPTURA DE CLICHÊS
Antônio Luiz de Castilho
Sara Nach é uma escultora paulista cujo trabalho tem sido apresentado em freqüentes exposições individuais e coletivas.
Sua singularidade é a ruptura com os clichês da cena amorosa. Homem e mulher não estão se beijando ou se abraçando. Também não estão em pé ou deitados, em enlevo romântico. Em lugar disso, o casal esta sentado no chão, evidenciando a estabilidade de sua condição. Quem se senta no chão e se ampara no outro não pode mais cair, na sugestão de um destino amoroso consolidado.
Passemos ao estudo simbólico das formas: há triângulos visíveis nas pernas e no vazio delimitado pelo braço/perna direitos e tronco masculino. As pernas femininas, em sua pujança, são como montanhas a circundarem o corpo da mulher, de modo paradoxalmente convidativo e interditório, formando, entre si, uma estreita passagem, à feição de um desfiladeiro.
Podemos então vislumbrar que a escultura se transfigura nos grandes temas da psicanálise que irrompem de si. O triângulo é o símbolo por excelência do Édipo. A perna direita feminina, arredondada, envolvente em suas entrâncias, nos remete a um real extasiante em sua materialidade, dimensão regida por um além do princípio do prazer, onde pulsionalmente vigora a pura vontade de gozo. E a outra perna feminina, cindida e aplainada na forma de urna tábua, evoca o universo da lei, inscrevendo o desejo no campo social da linguagem. A lei, assim, é a guardiã do desejo, ao subordiná-lo ao principio da realidade e articulá-lo às interdições e prescrições da cultura.
A obra é ainda permeada pela idéia de apoio, através de uma estética sutil e instigante: o casal se ampara reciprocamente sem se tocar ou se fundir. Uma linha de vazio separa as partes próximas das figuras. A cabeça feminina não é complemento de forma da cabeça masculina e vice-versa. Também estão perdidos o braço esquerdo masculino e o direito feminino, gerando um vácuo central. Exsurge aí outro conceito psicanalítico essencial: o de castração, atinente à falta humana fundamental que nenhum objeto pode preencher, e que faz do vazio o cerne do desejo.
A despeito de seu nome, Cara-Metade não apresenta o amor na forma de junção narcísica de partes complementares, em que homem e mulher buscam no outro a obturação de sua cárie existencial. O vazio entre as figuras e a independência sutil das cabeças, que se apóiam sem se fundirem, passa-nos a lição de que o amor adulto não é o da recuperação da unidade perdida, mas o da parceria na diversidade. Assim, a sabedoria da escultura é preconizar um amor equilibrado entre Eros e Philia, em que o ajuste de subjetividades toma saudavelmente o lugar da angústia por completude.
Juntos (lado a lado), mas ontologicamente separados, homem e mulher olham para o mundo e para nós e parecem querer dizer que perdemos o irrecuperável (a fusão com a mãe) para ganharmos o amor possível: a união erótica com o outro na precariedade do ser e do tempo, mas na grandeza de seu assentamento sobre o chão infinito da liberdade.
Artigo de Antônio Luiz de Castilho Especialista em Teoria Psicanalítica pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)
para o CADERNO PENSAR do Jornal “ESTADO DE MINAS”
de Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais, Brasil. OSWALDO NÉVOLA FILHO DEDICA POEMA "DOM" PARA A ARTISTA PLÁSTICA SARA NACH O EXCELSO DOM DE ESCULPIR
por Oswaldo Névola Filho
(Poema publicado na coluna Panorama das Artes, no
Jornal Vicentino, da cidade de São Vicente - SP/BR)
Movimentos ágeis.
Sensibilidade aflora,
Criações férteis,
Mãos frágeis, delicadas!
Geometria abstrata,
Envolve humanas formas,
Mãos sovam a argila,
Mágica essência terrosa,
Harmônicas composições,
Fundem-se na fórmula química,
Sílica, alúmina e água,
Numa ação conjunta,
Ao calor provindo dos toques,
De abençoadas mãos!
Divino dom de esculpir,
Perfeita individualidade,
Inconfundível autoria!
Flexíveis inventos,
Espectadores cúmplices,
Espiam, buscam vislumbrar,
Aura da arte implícita!
Peças indimensionais,
Exprimem o sublime dos corpos,
Exaltam ingênua sensualidade,
Inerente ao excelso
Universo feminino!
Uma visão pura e clara,
Das obras únicas, sem par,
De Sara Nach!
OSWALDO NÉVOLA FILHO, nomeado "Intelectual do Ano" em 1998,
pela Sociedade de Cultura Latina do Brasil,
era poeta e professor. Foi também coordenador deliberativo da Casa do Poeta Brasileiro - POEBRAS,
presidente da Casa do Poeta Brasileiro de São Vicente
e diretor-assistente do Instituto Histórico e Geográfico da Cidade de São Vicente.
Ao Oswaldo, poeta, falecido aos 57 anos, no dia 15 de setembro de 2003,
que tão carinhosamente me recebeu em sua cidade, presto aqui minhas homenagens póstumas.
PERSÉFONE DE SARA NACH E AS MULHERES E AS ROMÃS DE ADÍLIA BELOTTI
As mulheres e as romãs...Artigo de Adilia BelottiSurpresas são uma delícia!Uma amiga chega com o livro “Sopa de Romãs”,da autora iraniana Marsha Mehran. Diz que acombinação de histórias, cozinhas mágicas onde fervem caldeirões de aromas exóticos eemoções temperadas de fantasias, tinha tudoa ver comigo...Amigas são assim, espelhos generosos de nós...
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