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    ANTÔNIO LUIZ DE CASTILHO ANALISA UMA OBRA DE SARA NACH

      
    RUPTURA DE CLICHÊS
                          Antônio Luiz de Castilho 
     
              
     
    Sara Nach  é uma  escultora paulista cujo trabalho tem sido apresentado em  freqüentes ex­posições individuais e coletivas.
     
    cara metade Cara-Metade (bronze com pátina verde) é obra em que o belo se transborda num convite à reflexão, pois expressa inconscientemente uma visão sobre o amor que desafia o senso comum.
     
    Sua singularidade é a ruptura com os clichês da cena amorosa. Homem e mulher não estão se beijando ou se abraçando. Também não estão em pé ou deitados, em en­levo romântico. Em lugar disso, o casal esta sentado no chão, evidenciando a estabilidade de sua condição. Quem se senta no chão e se ampara no outro não pode mais cair, na sugestão de um destino amoroso consolidado.
     
    Passemos ao estudo simbólico das formas: há triângulos visíveis nas pernas e no vazio delimitado pelo braço/perna direitos e tronco masculino. As pernas femininas, em sua pujança, são como montanhas a circundarem o corpo da mulher, de modo paradoxalmente convidativo e interditório, formando, entre si, uma estreita passagem, à feição de um desfiladeiro.
    Podemos então vislumbrar que a escultura se transfigu­ra nos grandes temas da psicanálise que irrompem de si. O triângulo é o símbolo por excelência do Édipo. A perna direita feminina, arredondada, envolvente em suas en­trâncias, nos remete a um real extasiante em sua materia­lidade, dimensão regida por um além do princípio do pra­zer, onde pulsionalmente vigora a pura vontade de gozo. E a outra perna feminina, cindida e aplainada na forma de urna tábua, evoca o universo da lei, inscrevendo o desejo no campo social da linguagem. A lei, assim, é a guardiã do desejo, ao subordiná-lo ao principio da realidade e articu­lá-lo às interdições e prescrições da cultura.
     
    A obra é ainda permeada pela idéia de apoio, através de uma estética sutil e instigante: o casal se ampara reciprocamente sem se tocar ou se fundir. Uma linha de vazio separa as partes próximas das figuras. A cabeça feminina não é complemento de forma da cabeça masculina e vice-versa. Também es­tão perdidos o braço esquerdo mas­culino e o direito feminino, gerando um vácuo central. Exsurge aí outro conceito psicanalítico essencial: o de castração, atinente à falta humana fundamental que nenhum objeto pode preencher, e que faz do vazio o cerne do desejo.
     
    A despeito de seu nome, Cara-Metade não apresenta o amor na forma de junção narcísica de par­tes complementares, em que homem e mulher buscam no outro a obturação de sua cárie existencial. O vazio entre as figuras e a inde­pendência sutil das cabeças, que se apóiam sem se fun­direm, passa-nos a lição de que o amor adulto não é o da recuperação da unidade perdida, mas o da parce­ria na diversidade. Assim, a sabedoria da escultura é preconizar um amor equilibrado entre Eros e Philia, em que o ajuste de subjetividades toma saudavelmente o lugar da angústia por completude.
     
    Juntos (lado a lado), mas ontologicamente separa­dos, homem e mulher olham para o mundo e para nós e parecem querer dizer que perdemos o irrecuperável (a fusão com a mãe) para ganharmos o amor possível: a união erótica com o outro na precariedade do ser e do tempo, mas na grandeza de seu assentamento sobre o chão infinito da liberdade.

      

     Artigo de Antônio Luiz de Castilho
     Especialista em Teoria Psicanalítica pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)
     para o CADERNO PENSAR do Jornal “ESTADO DE MINAS”
     de Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais, Brasil. 

    OSWALDO NÉVOLA FILHO DEDICA POEMA "DOM" PARA A ARTISTA PLÁSTICA SARA NACH

     
     
      O EXCELSO DOM DE ESCULPIR
                                           por Oswaldo Névola Filho
      
      (Poema publicado na coluna   Panorama das Artes, no
       Jornal Vicentino,    da cidade de São Vicente - SP/BR) 
     
     Movimentos ágeis.
     Sensibilidade aflora,
     Criações férteis,
     Mãos frágeis, delicadas!
     Geometria abstrata,
     Envolve humanas formas,
     Mãos sovam a argila,
     Mágica essência terrosa,
     Harmônicas composições,
     Fundem-se na fórmula química,
     Sílica, alúmina e água,
     Numa ação conjunta,
     Ao calor provindo dos toques,
     De abençoadas mãos!
     Divino dom de esculpir,
     Perfeita individualidade,
     Inconfundível autoria!
     Flexíveis inventos,
     Espectadores cúmplices,
     Espiam, buscam vislumbrar,
     Aura da arte implícita!
     Peças indimensionais,
     Exprimem o sublime dos corpos,
     Exaltam ingênua sensualidade,
     Inerente ao excelso
     Universo feminino!
     Uma visão pura e clara,
     Das obras únicas, sem par,
     De Sara Nach! 
     
     
    OSWALDO NÉVOLA FILHO, nomeado "Intelectual do Ano" em 1998,
    pela Sociedade de Cultura Latina do Brasil,
    era poeta e professor. Foi  também coordenador deliberativo da Casa do Poeta Brasileiro - POEBRAS,
    presidente da Casa do Poeta Brasileiro de São Vicente
    e diretor-assistente do Instituto Histórico e Geográfico da Cidade de São Vicente.
    Ao Oswaldo, poeta, falecido aos 57 anos, no dia 15 de setembro de 2003,
    que tão carinhosamente me recebeu em sua cidade,  presto aqui minhas homenagens  póstumas.  
     

    PERSÉFONE DE SARA NACH E AS MULHERES E AS ROMÃS DE ADÍLIA BELOTTI

    As mulheres e as romãs...
                                      Artigo de Adilia Belotti
    Surpresas são uma delícia!
    Uma amiga chega com o livro “Sopa de Romãs”,
    da autora iraniana Marsha Mehran. Diz que a
    combinação de histórias, cozinhas mágicas onde fervem caldeirões de aromas exóticos e
    emoções  temperadas de fantasias, tinha tudo 
    a ver comigo...
    Amigas são assim, espelhos generosos de nós...
    Nina Horta fez a saborosa tradução do livro e
    adaptou as receitas que vão pontuando a
    narrativa costurada com as cores
    da tal cozinha mágica: dourados de samovares
    antigos,anil de ladrilhos e vermelhos... de romãs.
    Romã aqui para nós é frutinha de quintal, daquelas que não vão pra mesa de festa, ficam no pé, ao sabor das crianças e dos passarinhos... no Dia de Reis lá em casa,
    faziam parte do ritual de prosperidade que incluía comer um bago, escolher seis sementes, jogar o resto para trás e guardaras sementes secas na carteira até o ano seguinte.
    Romãs são símbolos tradicionais da fecundidade, em alguns lugares da Ásia a fruta aberta representa a própria vulva. Na Grécia, era a fruta de Afrodite, a deusa do amor e da beleza e de Hera, a deusa que regia os casamentos e os partos. Também é parte de um dos mitos mais antigos e mais profundamente relacionados aos mistérios femininos.
    A história de Deméter e de sua filha, Perséfone.
    A bela e jovem Perséfone, filha do poderoso Zeus e de Deméter, a grande deusa da Natureza, colhia flores junto com as Ninfas, na planície de Ena, sob o sol da primavera na Sicília. Tão linda
    e tão iluminada em sua juventude que Hades, senhor do mundo subterrâneo se apaixonou perdidamente por ela. E lá estava então a moça, na campina florida quando reparou em uma flor estranha, bela e de perfume desconhecido, irresistível, um narciso, na verdade,
    mas da espécie que só floresce nos sonhos. Maravilhada, a moça se afastou das companheiras querendo aproximar-se do tufo de cores que, aparentemente, só seus olhos viam. No momento em que se abaixou
    para colher a flor magnífica, no entanto,
    a terra abriu-se sob seus pés e de suas entranhas ela viu emergir o carro negro puxado por quatro cavalos selvagens e igualmente negros do Senhor das Trevas, imponente, belo e terrível. E num segundo, Perséfone, mergulhada em encanto e terror, é raptada e levada para
    as profundezas do reino de Hades - ou Plutão.
    Raptos não chegavam a ser incomuns naqueles tempos, mas Hades talvez tenha subestimado sua futura sogra. Deméter, inconformada com a partida da única filha, refugiou-se na tristeza e deixou de cuidar da terra, que cobriu com sua própria desolação. A história das peregrinações de Deméter em busca de Perséfone é
    longa e tão obstinada que Zeus, vendo as sementes murcharem antes de germinar e os campos mergulhados num inverno estéril e
    sem fim, resolveu intervir. Comandou a volta de
    Perséfone da mansão de Hades, mas a ordem chegou quando já era tarde...
    Hermes ou Mercúrio, o mensageiro de Zeus chegou ao mundo dos mortos para fazer cumprir os desejos do grande deus e encontrou Hades, magnífico, e a bela Perséfone juntos, sentados em imensos tronos negros
    de ébano. Antes de deixar a noiva partir, Hades deve ter murmurado ao seu ouvido
    palavras ardentes e ofereceu-lhe numa bandeja de delícias, uma romã, que a jovem provou encantada e sem saber que nem mesmo Zeus poderia tirar do mundo subterrâneo
    uma criatura que tivesse bebido ou comido algo de lá. Foram seis gominhos de romã que tornaram a jovem para sempre Senhora do Reino das Sombras, ao lado de seu terrível e poderoso marido.E foi assim que Deméter, bondosa mãe da Natureza, teve que resignar-se a ter a filha junto de si apenas por alguns meses no ano, sempre ao findar do inverno,
    quando Perséfone chegava iluminada, carregando nos pés a Primavera, mais uma vez... e foi assim também que as criaturas tiveram que se acostumar com o ritmo circular
    do tempo, com o eterno germinar das sementes,
    do caminho de todas as coisas do escuro para a luz e de volta, sem parar...
    Romãs... quem diria...tem tudo a ver conosco..."
     
     
    O artigo “As Mulheres e as Romãs” de Adília Belotti,
    jornalista e escritora foi publicado
    originalmente no site SOMOS TODOS UM  e tem
    autorização da autora para estar aqui a pedidos da
    artista plástica.

    (Para ler " Sopa de Romãs", de Marsha Mehran, editora Jaboticaba, tradução de Nina Horta).


    ROBERTO CABARITI APRESENTA O TROFÉU "JOÃO UCHÔA BORGES", CRIAÇÃO DE SARA NACH PARA A ACESC

     

    DISCURSO DE APRESENTAÇÃO 

    DO TROFÉU "JOÃO UCHÔA BORGES"

                                               de ROBERTO  CABARITI

     

    "Na  qualidade de Presidente do Conselho Superior da ACESC - Associação de Clubes Esportivos e Sócio Culturais de São Paulo parabenizo todos os participantes do Concurso de Troféus da Maratona Cultural e desejo felicidades e sucesso, na certeza de que suas apresentações e seus trabalhos, por si só, serão merecedores do maior reconhecimento por sua qualidade e atributos artísticos que todos nós teremos o privilégio de apreciar.

    Esta noite também me sinto profundamente honrado com a oportunidade de homenagear o nosso saudoso amigo e grande personagem da história paulistana, João Uchôa Borges, ilustre advogado, empresário e fundador e ex - presidente da Associação de Clubes Esportivos e Sócio Culturais de São Paulo, órgão que desde a sua fundação vem desenvolvendo ativamente o intercâmbio de idéias e a mais produtiva discussão de temas sempre voltados ao aprimoramento da atividade clubística e, sobretudo, ao atendimento cada vez melhor dos anseios e das necessidades de nossos associados.

    Durante a sua vida, João sempre se dedicou com brilhantismo às causas benemerentes, sociais e culturais de  inúmeras entidades, como:  Automóvel  Clube de São Paulo,  Sociedade Harmonia de Tênis, Jockey Club de São Paulo, Nacional Club de São Paulo, São Paulo Clube, SindiClube – Sindicato de Clube do Estado de São Paulo, Conselho Superior Interclubes,   Associação Comercial de São Paulo, Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, Fundação Barão de Souza Queiroz, entre muitas outras. E em todas elas demonstrou o seu espírito de liderança e o carisma que cativava a todos em volta, deixando seu legado marcado em nossas mentes e corações.

    Em reconhecimento a este importante trabalho e à pessoa magnífica que sempre foi a partir de 2006 instituiremos o troféu João Uchôa Borges, de caráter definitivo, e que premiará anualmente a agremiação com maior destaque de participação nos âmbitos Cultural e Esportivo na ACESC. O trabalho é uma belíssima escultura da artista plástica Sara Nach, e trata-se de uma singela homenagem ao nosso grande amigo e mentor, com o intuito de preservar sua memória, lembrando seu entusiasmo e vigor com que se dedicava ao trabalho em prol dos clubes, sempre realizado com muita alegria e energia redobrada.

    Estou certo de que nesta noite, onde quer que ele esteja, nos vendo assim reunidos e alegres, juntos de sua linda família e antigos amigos, João Uchôa se faz presente neste congraçamento, com seu sorriso espontâneo e palavras certas para nos sugerir sempre o melhor caminho a seguir.    

    Por fim, sinto-me no dever de enfatizar a importância e a seriedade com que as Diretorias Culturais de todos os clubes filiados encaram esta Maratona e parabenizá-las calorosamente pelos extraordinários resultados que têm gerado no decorrer destes anos. E estendo os meus sinceros agradecimentos e elogios ao Clube Atlético Paulistano na pessoa do seu presidente José Manoel Castro Santos, que nos recepcionou de forma primorosa, como sempre o faz, demonstrando extrema cordialidade e oferecendo o mais perfeito atendimento, qualidades essas que despertam em todos nós a mais profunda admiração e empatia por esse tão importante clube da cidade de São Paulo.

    Muito obrigado."

    Discurso proferido por Roberto Cabariti,  Presidente do Conselho Superior da ACESC, Associação de Clubes Esportivos e Sócio Culturais de São Paulo,  na noite de 26 de junho de 2006,  nas dependências do Clube Paulistano, por ocasião da instituição do troféu “João Uchoa Borges" e do concurso anual de troféus da Maratona Cultural.